6. MEDICINA E BEM-ESTAR 27.2.13

MEDICINA ABAIXO DE ZERO

Mtodo que usa frio extremo para tratar leses cardacas e cerebrais comea a ser testado contra dor e tumores
Mnica Tarantino

O uso de aparelhos para promover resfriamento do corpo e at o congelamento de clulas  um recurso consolidado para remover pintas e leses cutneas e tambm na cardiologia e neurologia. Durante paradas cardacas ou acidentes vasculares cerebrais, o resfriamento diminui a atividade metablica das clulas nervosas, o que pode tornar mais fcil para as clulas cardacas e cerebrais sobreviverem ao evento. Seguindo essa linha de raciocnio, na semana passada, pesquisadores da Universidade de Washington (EUA) anunciaram resultados promissores de um estudo que resfriou em at quatro graus negativos o crebro de cobaias que sofreram leses traumticas na cabea. Os traumas so a principal causa da epilepsia adquirida em adultos jovens e, em muitos desses casos, as crises no so controladas com medicao, explicou Matthew Smyth, lder do trabalho. Enquanto um grupo de animais recebeu fones de ouvido com capacidade de resfriamento, outro colocou os mesmos fones, mas sem esse poder. Os ratos cujos crebros foram resfriados apresentaram apenas uma convulso breve quatro meses aps terem sofrido uma leso cerebral. J os outros tiveram quadros mais graves. Se confirmarmos a eficcia da refrigerao em humanos, o mtodo pode se transformar em uma maneira segura e relativamente simples de prevenir convulses e at evitar a epilepsia nesses pacientes, disse Smyth. O trabalho foi publicado na revista Annals of Neurology.
 
Outra rea em que h progressos com a chamada crioterapia  o controle da dor. O Instituto Nacional dos EUA est financiando estudos para avaliar o potencial do mtodo de aliviar dores no joelho de pacientes com osteoartrite. Neste caso, agulhas conectadas a tubos de gs argnio so inseridas logo abaixo da pele. Quando o gs  liberado, surgem cristais de gelo que cauterizam vasos sanguneos e impedem a nutrio dos nervos, o que reduz a transmisso dos sinais de dor.

OPES - Alfer (acima), do hospital Albert Einstein, usa o mtodo contra tumor de rim e de prstata. Ricci, do Icesp, prepara estudo sobre cncer de mama

Mas  na luta contra o cncer que se v o maior esforo para ampliar o emprego da tcnica. H progressos contra tumores de prstata, rim e diversos experimentos para avaliar seu desempenho contra o cncer de mama. Nos EUA, o urologista Fernando Kim, da Universidade do Colorado, aplica a crioablao (feita com as agulhas e equipamentos ultrassom) contra tumores na prstata e nas suas metstases. Para Kim, um dos pioneiros no estudo da tcnica, uma das vantagens sobre a cirurgia tradicional  reduzir as chances de incontinncia urinria e impotncia. Ele tambm trata tumores localizados em pontos especficos, o que  uma tendncia chamada tratamento focal.
 
Em So Paulo, o mtodo  indicado pelo urologista Wladimir Alfer, do Hospital Albert Einstein, em casos de falhas no tratamento do cncer com radioterapia e para idosos que no querem conviver com um tumor de prstata, apesar de no haver risco de virem a morrer por causa dele. Alfer tambm usa o recurso para metstases no rim e no fgado. Nestes casos, o paciente entra em um tomgrafo para que as agulhas sejam inseridas com preciso milimtrica. Hoje a tcnica  mais segura por causa do uso de aparelhos de imagem para monitorar a insero das agulhas e destruio das clulas, diz o especialista.

O efeito das agulhas geladas no cncer de mama est em avaliao em centros como a Universidade Cornell, nos EUA, e no Japo, onde foram tratadas at agora no Kameda Medical Center quatro pacientes com a doena em fase inicial. No Instituto do Cncer de So Paulo, o mastologista Marco Ricci est estruturando um estudo para avaliar a eficcia da remoo com crioablao de tumores de mama de at um centmetro e meio de mulheres idosas sem condies de fazer uma cirurgia. O equipamento para realizar o procedimento j chegou. Segundo o especialista, que avalia outras tcnicas com a mesma finalidade, a criocirurgia pode alcanar 95% de chances de eliminar completamente tumores pequenos de mama.  um mtodo promissor, porm mais pesquisas so necessrias. Mas isso no deve demorar muito. O futuro  investir no estudo de estratgias para diminuir o papel da cirurgia, diz o cirurgio Alfredo Barros, coordenador do ncleo de mastologia do Hospital Srio-Libans, em So Paulo.

